A punhalada pela frente
talvez seja mais dolorosa que aquela vinda pelas costas. Não estou
considerando, é claro, méritos de quem finca em carne punhal a seco. Porém,
ainda que estivesse: ataque por trás é covardia. Em contrapartida, ao ver mão
no punhal e sorriso no rosto, já sinto dor física somada à dor da derrota.
O intuito não é ser
sujeito de vitórias ou derrotas, mas sim ser predicado, e não prejudicado. A
ação sobre a qual recai o sujeito não deve ser ataque de punhal, quaisquer que
sejam as perspectivas: de fronte ou de costas. Tal oração não pode, ainda
assim, ser início do texto.
O aviso prévio, a
introdução à estória que já tinha final definido foi necessária. E, mesmo que
não desejasse tal ferimento, agradeço por essa punhalada diária para me alertar.
E me culpo por ignorar tais ferimentos como quem usa anestésicos para caminhar
descalço em cacos de vidro. Caminhei nos meus, não pisei em ovos, de a cara a
tapa e peito à punhalada.
Mesmo que pior, aceito tal
perspectiva. Olhe em meus olhos, comemore com afã, sinta meu sangue
vermelho-já-não-tão-vivo gotejar em seus sujos sapatos de punhaladas de
outrora. Olhe para mim com o sádico sorriso que te caracteriza quando te
convém. Tenha dó, mas não deixe de terminar de cravar o punhal em meu peito. Afinal,
prefiro morrer inteiro e pleno na punhalada a ficar apenas deficitário, em
estado grave sem previsão de melhora. Ou melhor, de piora.
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