domingo, 30 de outubro de 2011

para flavinha.



Éramos tão paulistanos que não cansávamos de procurar o centro do centro do centro da cidade. Entre sambas, noites sem dormir, estudos sem fim, nos encontrávamos. Nem sempre fisicamente, claro, mas em cada poste pichado e em cada calçada com as pedras já gastas de tantos transeuntes, bicicletas, cães e até mesmo aqueles que já tinham designado esse espaço democrático como lar, muito embora até hoje esperem cartas que os correios não entregam.
É assim até hoje. Entre pinacotecas, discotecas, bibliotecas somos cada vez mais São Paulo. Cada vez mais nós em São Paulo. Nossa Paulicéia que insistimos em colorir da maneira mais diferente possível, sem esquecer que o cinza é o que move essa cidade.
Sambamos, dançamos e até nos beijamos quando a noite já é dada por acabada e o que nos resta é um café adocicado em qualquer bar da rua Augusta, em meio a prostitutas e cafetões, e até alguns drogados que não nós, já em overdose de alegria da companhia, do estar ao-lado-de. Tão juntos que, quando nos separamos nem ligamos um para o outro. A distância do centro a minha casa me faz lembrar que você carrega sua mochila repleta de livros, roupas e segredos que só cabem a você, ou só cabem a nós, e todos os seus passos. 
Somos tão São Paulo que queremos o Rio de Janeiro, queremos talvez a Bahia. Acredito que essas sejam vontades de sentir falta do nosso desordeiro lar, nas nossas calçadas, bares, hospitais. Eu já sinto esse buraco em mim. E voltar com a possibilidade iminente de ver-te me faz querer mais samba e mais você, num gole pleno da cerveja mais gelada que existe no botequim. Afinal, somos duas peças insignificantes dentro desse caos que chamamos de vida. 
E amamos sê-lo. Um para o outro, sempre.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

sem título. 19/03/2009

O meu samba veio assim:
Meio de leve, sincopado,
Na cadência do meu passo
Cauteloso e sem razão.

Vem no breque, no compasso,
Na magia do chocalho,
Aumentando, pouco a pouco,
A alegria de sambar.

Esse samba bem marcado
Já nasceu endereçado.
Tem nome, sobrenome,
E remetente apaixonado.

Quando eu canto bem forte
Minha alma vai além.
Na Lapa, Santa Tereza,
Ou no morro de ninguém.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

capítulo, crônica, conto: dúvida.

Era domingo. Com certeza havia esquecido. Afinal, ao ouvir o ensurdecedor ruído vindo de seu criado-mudo (não tão mudo assim) desligou o alarme e levantou-se, pronto para seu ritual diário. Tudo igual: sábado era dia de beber, domingo era dia de pensar-se que era segunda-feira. Logo desistiu da idéia de dia útil e voltou para cama. Talvez seu maior medo fosse sonhar no domingo e acordar naquele perene dia sem ninguém ao seu lado. Sonhar em dias úteis é melhor: em instantes o fluxo do cotidiano já o faz esquecer o que foi ou não foi aquele sonho.

Já estava quase obtendo sucesso em esquecer-se do tempo em que gostava de sonhar nas noites de sábado. Acordar domingo ao lado dele, dormindo, trazia conforto. Conforto esse muito maior do que qualquer sonho interrompido por uma velha andando vagarosamente com seu carrinho de feira ou crianças correndo atrasadas para o colégio. Mas não esquecia. Ainda conseguia se lembrar do último sábado, do último sonho.  Do mesmo modo lembrava-se da última briga. Ou da falta dela. Da falta das palavras. O conforto do esquecimento do sonho era dado, em grande parte das vezes, através de olhares rápidos, palavra nenhuma, sexo e despedida. O que não deixava de ser conforto, a sua maneira.

Esperava então incessantemente pelo próximo sonho, pelo próximo final de semana. Pela possibilidade, mesmo que mínima, de uma palavra. Às vezes tinha medo: acreditava que algumas palavras poderiam ser ditas às avessas. Pensava então que os olhares, cada vez mais rápidos, e o sexo, cada vez menos sexo, seriam suficientes. Qualquer desvio que o trazia a realidade já o aliviada. Logo acreditaria que não precisaria mais lembrar-se das noites de sábado. A velha na rua, os carros buzinando, as crianças correndo seriam alternativa mais viável e menos dolorosa.  

Enfim levantou-se depois de algumas horas virando de um lado para o outro na cama, insistindo naquele não-sonhar. Tomou um forte café e duas aspirinas. O dia estava nublado. No jornal ainda estavam notícias da outra semana. Pesquisou possíveis amigos na sua agenda telefônica. Quem sabe um cinema? Um almoço? Nada. Percebeu que seu domingo seria domingo. Esperar até quatro horas da tarde e assistir ao futebol. Desligar a televisão simultaneamente ao apito do árbitro. Tinha pavor de assistir a programas dominicais. Eles emburrecem as pessoas.

Como faltava ainda algum tempo para quatro horas, fez um rápido macarrão com qualquer esperança de molho que ainda sobrava na dispensa e comeu rapidamente acompanhado de uma taça de vinho. Afinal as aspirinas fizeram efeito em vinte minutos (e ele sabe o que significa placebo) e sua taça de vinho talvez fosse sua única companhia viável, que não ligava em ser esvaziada, enchida, chacoalhada e depois desprezada num canto da cozinha a espera de uma moça muito desastrada que já havia assassinado algumas de suas companheiras. Assim como Alberto, a taça era a mais sozinha das taças. Mas não ligava e gosta de ser taça, mesmo que no singular. Para objetos, o plural traz insignificância. Para pessoas, traz alegria.

Foi um bom jogo. Entre alguns momentos de lapso olhando pela janela, Alberto ainda conseguiu ver lances interessantes, gols bonitos e seu time ganhar. Desligou a televisão simultaneamente ao apito do árbitro. Já eram seis horas e já era noite. O inverno faz os dias passarem mais rápido, e a possibilidade de sonhos se torna mais factível. Isso o assustava e o fazia postergar a possibilidade de esquecimento das noites bem dormidas.

Pensou em arrumar a casa. Não estava com vontade de sair. A noite anterior havia sido cansativa. Foram músicas no maior volume possível, álcool nas maiores doses e algumas drogas corriqueiras. Coisas de sábado à noite. Estranhamente lembrava-se de como estava feliz e pleno na noite anterior. Olhava-se no espelho agora e lembrava-se que ontem sua face era risos e sorrisos, olhos e olhares, e não essa boca seca, lábio cortado, olho encovado. Notou também que usou tantas palavras na noite anterior, fosse cantando ou conversando, que não sentiu necessidade alguma de conversar naquele domingo. Deu-se conta de que não havia pronunciado uma sequer palavra naquele dia, nem um grito de gol do seu time. Era um mudo transitório. Nem ligou quando percebeu isso. Sua profissão demanda tanto de sua fala que achava bom dar folga aos inúmeros músculos que são articulados quando queremos pronunciar apenas um artigo.

Deixou a casa como estava. Os livros empilhados ao lado de sua poltrona de leitura, de couro gasto. Herança de seus pais, ainda vivos, que não aguentavam mais aquela poltrona velha e desconfortável, mas que Alberto tinha um sentimento especial. Foi nela em que ele aprendeu os mistérios da literatura, da poesia. Foi sentado nela e é sentado nela até hoje que ele sonha acordado, sem a necessidade de ser acordado por velhas, crianças, por Jorge. Os rasgos do couro haviam sido resolvidos com uma grande manta azul que a cobria. Sabia que não combinava, mas não ligava: aquele era seu espaço, que talvez desejasse que fosse invisível. Seu porto seguro, seus livros, suas estórias contadas em outras línguas, em outras palavras. A pia da cozinha, além da solitária taça de vinho contava também com algumas panelas e talheres usados, bem como numerosas latas de cerveja. Essas não se sentiam sozinhas. Eram sempre plural. Deu uma breve volta em seu bairro, observou casais aparentemente felizes, comprou cigarros, uma grande garrafa de refrigerante e voltou para casa. Dormiu esperando sonhar com a velha que o faria esquecer do sonho na manhã seguinte.