quinta-feira, 1 de agosto de 2019

jamaraquá.

escrito em 28/03/2017

Estávamos nós: eu e as estrelas. Eu que pensava que todas tinham sumido. De onde venho, tudo é breu. Há tempos pensei que a fumaça houvesse escurecido as estrelas. Decerto ficaram cinzas, como quase tudo que habita aquela cidade. Mas éramos nós, eu e elas. Justamente naquela noite em que descobri que rios tem ondas. Ondas que lambem, sistematicamente, a areia fina que não se vê na praia de águas mais claras e areias mais brancas. O som rítmico, rápido, de alto mar. Vez ou outra a palafita tremia.

O silêncio da noite era ensurdecedor. insetos, macacos, cobras, pássaros: o canto das almas. A rede balançava movida pelo sussurrar dos tapajós. Como pode um rio desse tamanho? Dizem que no verão ele fica mirrado, seco, com areia tomando espaço, bebendo água, fazendo praia e alegria. Nada de sujeira. A água voa, vai viajar por outras veredas, depois volta. Nascido na cidade, onde a burrice e a ganância assoreiam rios, custei a crer. Mas dessa vez estava lá, robusto, pleno, imponente, com aspecto de mar-sem-fim. Horizonte que cega. Buraco negro na relva. 

Enquanto alguns dormiam, eu tinha esse momento. Elas e eu, minúsculo, insignificante. o vento dizia palavras indecifráveis. Talvez seja humano de menos para entendê-las. Mas estávamos lá, eu e elas, estampadas no céu. Fugiram para lá, onde tudo faz sentido, onde o céu não tem limites. Aqui, onde a fumaça não alcança nem apaga o brilho delas. Onde cintilar é única forma de existir. Cadentes. Potentes. Distantes. Certas de suas belezas, as estrelas. E eu. 
Nonada.