Escrevo com palavras de alma. Escrevo com letras de grafite. Carbono. Tenho eu percebido cada vez mais que não passamos de carbono. Talvez o lápis de hoje tenha sido parte de outrem. Quem confia em destinos mal escritos em textos de alguns milhares de anos? Bem escrita é a letra que imagino em meu papel. Minha mão trêmula talvez impeça a concreção desse devaneio. Bem como o devaneio de que existo apenas hoje. Sem pensar que meus carbonos, que eu, em minhas várias unidades, posso me perpetuar. É o ciclo mais biológico que existe. Mas e se eu não quiser ser infinito? A meia vida do carbono pede eutanásia vez ou outra. Tratarei de paliar esse elemento para que ele descanse em paz. Eu também preciso descansar.
Longas horas de trabalho, de carbono expelido, ofegante. Hiperventilação. Tentativa de fazer o carbono se perpetuar no corpo de quem ainda não crê em continuidade apenas de elementos, mas sim de corpos e almas. Existem muitos que confiam em textos do mesmo grafite que escrevo, porém acreditam mais em carbonos de outrem. É frustra a noção, mas talvez não precisemos ser o eu inteiro após a desintegração. Palavras se desintegram em sí-la-bas, em l e t r a s, em re ti cên c i a s . . . As ávores se desfazem em ramos, folhas, galhos. Em carbonos. Sejamos carbono e nos espalhemos, por esse planeta, por outros planetas, por outros componentes cujas ligações podem determinar coisas incríveis. Aventuras na prática química, bioquímica. Biofísica. Aceitemos que somos biodegradáveis.