sábado, 1 de setembro de 2012

anatomia literal.



Aorta entorta
no mediastino
e desce, arrepio.
Soltando ramos
e elementos figurados.

As ilíacas são duas
vindas daquela solitária
artéria
sem Quitéria ou Amélia
apenas hemácias fugindo
da sua íntima
na forma de matéria.

O sangue segue
seco até o chão.
No dedão o fluxo diz: NÃO!
E o caminho de retorno
torna-se apenas saturação:
muito gás carbônico e pouca oxigenação.

terça-feira, 8 de maio de 2012

perspectiva.


A punhalada pela frente talvez seja mais dolorosa que aquela vinda pelas costas. Não estou considerando, é claro, méritos de quem finca em carne punhal a seco. Porém, ainda que estivesse: ataque por trás é covardia. Em contrapartida, ao ver mão no punhal e sorriso no rosto, já sinto dor física somada à dor da derrota.
O intuito não é ser sujeito de vitórias ou derrotas, mas sim ser predicado, e não prejudicado. A ação sobre a qual recai o sujeito não deve ser ataque de punhal, quaisquer que sejam as perspectivas: de fronte ou de costas. Tal oração não pode, ainda assim, ser início do texto.
O aviso prévio, a introdução à estória que já tinha final definido foi necessária. E, mesmo que não desejasse tal ferimento, agradeço por essa punhalada diária para me alertar. E me culpo por ignorar tais ferimentos como quem usa anestésicos para caminhar descalço em cacos de vidro. Caminhei nos meus, não pisei em ovos, de a cara a tapa e peito à punhalada.
Mesmo que pior, aceito tal perspectiva. Olhe em meus olhos, comemore com afã, sinta meu sangue vermelho-já-não-tão-vivo gotejar em seus sujos sapatos de punhaladas de outrora. Olhe para mim com o sádico sorriso que te caracteriza quando te convém. Tenha dó, mas não deixe de terminar de cravar o punhal em meu peito. Afinal, prefiro morrer inteiro e pleno na punhalada a ficar apenas deficitário, em estado grave sem previsão de melhora. Ou melhor, de piora.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

apontamento

a ponta
aponta
a seta do fim.


não desaponte.
há quem aponte
que após o ponto 
não há pranto;
há ponte.
meio sem fim.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

carbonífero, carbogênico.

Escrevo com palavras de alma. Escrevo com letras de grafite. Carbono. Tenho eu percebido cada vez mais que não passamos de carbono. Talvez o lápis de hoje tenha sido parte de outrem. Quem confia em destinos mal escritos em textos de alguns milhares de anos? Bem escrita é a letra que imagino em meu papel. Minha mão trêmula talvez impeça a concreção desse devaneio. Bem como o devaneio de que existo apenas hoje. Sem pensar que meus carbonos, que eu, em minhas várias unidades, posso me perpetuar. É o ciclo mais biológico que existe. Mas e se eu não quiser ser infinito? A meia vida do carbono pede eutanásia vez ou outra. Tratarei de paliar esse elemento para que ele descanse em paz. Eu também preciso descansar.
Longas horas de trabalho, de carbono expelido, ofegante. Hiperventilação. Tentativa de fazer o carbono se perpetuar no corpo de quem ainda não crê em continuidade apenas de elementos, mas sim de corpos e almas. Existem muitos que confiam em textos do mesmo grafite que escrevo, porém acreditam mais em carbonos de outrem. É frustra a noção, mas talvez não precisemos ser o eu inteiro após a desintegração. Palavras se desintegram em sí-la-bas, em l e t r a s, em re ti cên c i a s . . .  As ávores se desfazem em ramos, folhas, galhos. Em carbonos. Sejamos carbono e nos espalhemos, por esse planeta, por outros planetas, por outros componentes cujas ligações podem determinar coisas incríveis. Aventuras na prática química, bioquímica. Biofísica. Aceitemos que somos biodegradáveis.