terça-feira, 22 de novembro de 2011

6:30.

Chego no hospital ainda dormindo. Caminho pelo vazio saguão, incrivelmente frio nesse lugar geralmente um tanto quanto, digamos, aquecido. Subo o elevador, sempre vazio (a essa hora) e cruzo um escuro corredor, com alguns poucos afortunados como eu, no amanhecer. De repente, eu e ele. Um na frente do outro. Os dois, dormindo. Algumas poucas palavras já suficientes para saber de uma boa noite de sono ou de algumas dores ou vômitos habituais num pós operatório rebuscado. Viro-me e num (longo) piscar de olhos vejo um monitor com números, com contas, com sondas, com sono. Eu e o computador. Eu e o paciente separados, outrora pelo sono, agora por tela. Por números, por sono, pelo primeiro café na estreita copa. Sempre parece-me proibido roubar, digo, pegar o café daquele local. Aventais brancos assustam as pessoas, sem a menor necessidade. Não as culpo, claro. Afinal arrogância é prato que se come todos os dias naquele lugar. Mas isso não era privilégio daquele andar. Esse circunda todos os longos sete andares daquele prédio. Há quem tente mudar. Alívio. Continuo e de repente uma pergunta, um questionamento. Uma boa resposta e, novamente, o breve sono acomete-me. Sem café, agora o álcool. Nas mãos, claro. Uma borrifada na entrada, uma borrifada na saída. Protocolo médico, em minha opinião. Acredito que de meus colegas, sonolentos colegas aquele horário, pensem o mesmo. Percorro alguns quartos, viro-me, prescrevo-me alta e vou para casa. Evoluindo.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

para quem tem medo da morte.

Pensemos então que não há ponto final na morte. Morrer é transformar-se. Em que? Talvez em nada. O que não deixa de ser unidade. Logo unidade vira pensamentos, recordações, vida vivida na essência, na carne. Então morrer, antes nada, agora tudo. E tudo, a essa altura, é saudade.
É passo, pegada. É a tal travessia de que tanto ouvimos. Mas talvez estejamos por tantas vezes embrenhados em nossa travessia que não nos damos conta que ela acaba. Atravessar tem sentido de começo, meio e fim. Quando percebemos teimamos em nos conformar. O conceito de tempo, hora certa, hora errada passa a ser objeito de uso pessoal.
Usemos esse objeto. Não sejamos egoístas. A travessia termina e dói na carne. Pedaço arrancado a sangue frio. Mas lembremos - sim, o mais importante é lembrar - que é tempo de transformação. De tudo. De nada. De saudade.